Em uma dessas discussões sobre cinema que costumo ter com os meus amigos mais achegados (não tenho esse tipo de discussão com gente que eu não conheço muito bem), acabamos caindo em Woody Allen. Uma amiga argumentou que, por melhores que sejam os filmes atuais do novaiorquino, nenhum deles consegue recuperar o brilho e a genialidade dos anos 70 e 80. Ela pode até ter razão em partes. Porém, quando olho para Match Point, Vicky Cristina Barcelona e este novo Meia-noite em Paris, sou obrigado a discordar.
A mais nova incursão europeia de Allen é na cidade Luz, capital da França. Paris esta tão cheia de cultura e intelectualidade que somente o fato de estar nos faz sentir um pouco mais inteligentes que o normal. E é por essa atmosfera que Allen entregou um dos seus mais tocantes e inventivos filmes.
Owen Wilson (mandando ver e muito bem, por sinal) interpreta Gil, roteirista de Hollywood que está passando férias em Paris com a família da noiva, Inez (Rachel McAdams brilhantemente insuportável). Gil sempre retorna à Paris, pois, segundo ele, apenas lá é possivel ligar-se à "grande arte". Seu grande desejo era viver na Paris de 1920, quando figuras como F. Scott Fitzgerald e Pablo Picasso perambulavam pelas ruas, ateliês e ruelas. Misteriosamente, após uma decepção com a noiva e um pileque, Gil acaba sendo transportado para essa Paris onírica e passa a contracenar com seus grandes ídolos intelectuais.
O roteiro de Allen lança mão do realismo fantástico para discutir a função de Paris no imaginário coletivo americano e para jogar luz sobre o papel da arte. No primeiro caso, era em Paris que os grandes artistas sem muito crédito nos Estados Unidos se refugiavam para conseguirem continuar com a sua arte (o próprio Allen é um deste ao refugiar-se na Europa para conquistar o financiamento de seus filmes já que não o conseguia em sua própria pátria). No segundo caso, o filme defende a ideia que a arte não é um mero artigo de museu ou um banco de dados sobre os quais vomitamos várias informações sobre estilos, datas e técnicas. A arte é, antes de tudo, uma experiência a ser vivida intensamente. De nada adianta saber todos os detalhes técnicos sobre uma escultura ou uma pintura ou uma obra literária se esta não for capaz de te tocar profundamente, atingir o seu âmago.
Neste aspecto, é sintomático quando Gil chama o erudito amigo de Inez de pseudo-intelectual. De fato, o cara é mesmo. Há muita erudição no cara, mas pouca cultura. Conheço um monte de gente dessa maneira. Discorrem horas sobre as motivações que levaram Wagner ou Schumann a compor determinadas peças, mas são incapazes de absorver emocionalmente toda o impacto causado pela música clássica.
Esse tema é bastante recorrente na filmografia do Allen: o consumo da cultura popular versus o intelectualismo pedante. A vida é movimento, transformação. E deve-se acompanhar isso. Ler certo livro, ouvir certa banda, prestigiar certo cineasta só porque é "conceituado" é tão vazio e desnecessário como siacabar ao som de Valeska Popozuda.
Impossível não traçar alguns paralelos com outro filme de Allen, A rosa púrpura do Cairo. Além do realismo fantástico usado nas duas produções e dos nomes de ambos os protagonistas serem Gil, há ainda a referência a Buñuel, cineasta espanhol surrealista.
Merecidamente indicado a importantes categorias do Oscar (filme, direção e roteiro original), fico na torcida para que Meia-noite em Paris não saia de mãos abanando. Seria uma pena que uma produção tão grandiosa e fundamental, além de nostálgica, nesse começo de século não tenha o devido reconhecimento de seus patrícios. Um filme que defende a vida como superior a arte - afinal, a maior obra-prima da arte é justamente viver -, merece todos os nossos aplausos e admirações.

5 Opiniões expressas:
Ótimo texto!
Eu adoro a Rosa Púrpura do Cairo! Depois parei para pensar, e com exceção de Annie Hall (e talvez Manhattan), os meus filmes preferidos do Woody Allen são os que ele não atua.
Também vou torcer para um douradinho para o filme. :)
Todos para com o TeamAllen!!!
"Meia Noite em Paris" é um belo filme, que grita nostalgia. É uma obra muito bem feita que evoca justamente o espírito romântico e idealista de Paris. Merece todo o reconhecimento que tem obtido.
Foi o meu favorito do ano passado :)
Kamila e Alan, vcs estão certíssimos em seus comentários...
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