Sunday, April 28, 2013

Extremamente alto & Incrivelmente perto - Jonathan Safran Foer (360 páginas - Ed. Rocco, 2006)

Nunca é possível reconhecer o útlimo momento de felicidade que antecede uma tragédia. Seja ela o ataque às torres do World Trade Center, seja o cruel bombardeio aliado sobre Dresden, que arrasou a cidade e a população civil da histórica cidade alemã na Segunda Guerra Mundial. Portanto, dificilmente há tempo de verbalizar o amor que se sente pelas pessoas próximas que, por um golpe do destino, tornam-se distantes. Esta constatação e os dois acontecimentos históricos guiam este livro.
É incrível pensar que este é somente o segundo livro do escritor Jonathan Safran Foer. E é ainda mais incrível acreditar que o autor conseguiu encantar e conquistar mais uma vez. Extremamente alto & Incrivelmente perto é um dos livros mais contudentes lidos por mim recentemente. Sou alguém muito complicado com literatura, mas, quando sou ganhado nas primeiras páginas, entrego-me totalmente aos personagens e sou capaz de vivenciar suas dores a cada parágrafo. E foi isso que Foer conseguiu fazer.
Algumas coisas conquistaram-se logo de cara: o humor corrosivo, as referências que situam o romance em seu tempo (neste caso, à cultura pop, tema deste blog), o arrojo narrativo. E ainda, Foer toca em feridas pulsantes na história mundial, como o 11 de setembro e o bombardeio a Dresden. Todos esses panos de fundos históricos servem para conduzir uma linha narrativa sobre busca. Praticamente, todos os personagens estão à procura de algo: do pai, do amor, do sentido para viver.
Com apenas nove anos de idade, Oskar Schell perdeu seu pai há dois anos nos atentados às Torres Gêmeas. Ambos tinham uma relação bastante estreita e inteligente. O pai estimulava o filho a procurar erros no The New York Times, por exemplo). Sem o pai, Oskar vive com a mãe e, de certa forma, culpa-a por tentar seguir em frente, sem o marido. Ele também convive com a avó, abandoada pelo marido décadas antes e que criou seu único filho, o pai de Oskar, sozinha. Em um dos seus momentos típicos de irritação infantil, Oskar encontra um vaso azul dentro do closet do pai e, dentro do objeto, um envelope com a palavra Black escrita nele e uma chave dentro. Ir em busca da fechadura aberta pela chave é o que motivará Oskar a iniciar uma busca por toda a cidade de Nova York, encontrando vários tipos de pessoas em uma enriquecedora experiência de vida.
Foer realiza uma obra poderosa sobre a expurgação da dor e a busca de viver apesar de. Consegue fazer isso utilizando de diversos recursos gráficos, fotografias, páginas em branco, coloridos, marcações; maneiras de inserir ainda mais o leitor dentro dos dramas vivenciados pelos personagens. Mas ele não faz somente isso; não cria sua narrativa apenas em truques de linguagem, jogos de espelho e contrapontos temporais (como os focos narrativos assumidos pela Vó e pelo Vô em pontos chaves da trama). Foer está interessado em manter-se fixado em seu país, ha história e em fatos relevantes. Naturalmente, não apenas ao 11 de setembro, mas também na reconstrução do espírito americano pós-atentado. É também capaz de enxergar o outro lado da questão ao mostrar que a dor sentida pelos norte-americanos já foram sentidas por tantos outros povos, muitas vezes infligida pelos próprios Estados Unidos.
Antes comentei sobre os pontos de vistas e isso acaba incomodando em alguns autores quando se propõem a isso. É comum a mudança de ponto de vista marcada apenas pela indicação no início do capítulo, ao passo que a escrita permanece exatamente a mesma, sem nenhuma variação de estilo. Foer domina muito bem essa técnica: as diferenças de linguagem e a abordagem entre cada personagem são únicas. As narrativas de Oskar, do Vô e da Vó são completamente distintas umas das outras.
Por mais que elogiar Foer é chover no molhado, seu vigor literário é inegável e ele se torna um dos maiores expoentes de sua geração. Faz rir, chorar, refletir, questionar, na mesma medida. É uma leitura que não termina quando se fecha o livro ou quando se lê a última página. É o tipo de texto que fica. Que permanece. Apesar de.

Saturday, April 27, 2013

A estranha vida de Timothy Green (The odd life of Timothy Green - 105 min. EUA, 2012)

Cindy (Jennifer Garner) e Jim (Joel Edgerton) formam um casal que descobre que não pode ter filhos. Em uma noite regada à vinho, Jim propõe à sua esposa que façam um jogo: ambos escreveriam em pedaços de papel as características que gostariam que seu filho tivesse, tal como “ele nunca desiste das coisas”, “irá marcar o gol da vitória” e “será como Picasso, com um lápis”. Em seguida eles colocam os pedaços de papel em uma caixa e enterram no quintal. Porém, e é sempre no “porém” que a fantasia acontece, após uma noite com uma estranha tempestade, um menino cheio de lama aparece na casa dos Green. A partir daí a história já está lançada. Timothy aparenta ter entre 10 anos e seu comportamento “é o de um menino com as qualidades que os pais desejaram”, mas “essas qualidades se manifestam de maneira que nunca poderiam ter imaginado”. 
Poucos filmes são capazes de causar tanta insatisfação como A estranha vida de Timothy Green pode despertar no espectador. Vendido como uma comédia familiar simpática, para se assistir na companhia de quem se gosta, o filme é uma grande enganação em todos os sentidos, especialmente em aspectos narrativos.
O grande problema do filme é justamente seu roteiro, que brinca com o realismo fantástico, mas faz isso de maneira a causar mais estranhamento que conforto. Até uma produção de fantasia exige, no mínimo, um pouco de coerência. Analise os fatos. Quando o casal percebe algo estranho no meio da noite e começam a perseguir um inusitado vulto pela casa, eles encontram um menino, nu, sujo de terra, sentado em um quarto abandonado, brincando. O marido vai até a cozinha e vê que há um buraco no jardim. Sem aviso prévio, o garoto começa a chamar o casal de papai e mamãe. Ao invés de um questionamento sobre as origens daquela criança, nem que seja muito rapidamente, o casal não refletem sobre a veracidade dos fatos nem apenas por um momento. Tratam o menino como filho, apresentam para a família, matriculam na escola e após o sumiço do garoto, contam tudo para assistentes sociais que deveriam decidir se a família é apta ou não para a adoção de mais uma criança.
É necessário muita fé no roteiro escrito por Peter Hedges, que também dirigiu a película. Mesmo tendo agradado à crítica americana, Hedges fez de A estranha vida de Timothy Green  um filme construído em cima dos clichês, sem ao menos repaginá-los ou recriá-los. Fica a sensação de uma típica produção a ocupar suas tardes naquelas sessões cinematográficas exibidas pelos canais abertos. E isso ocorrerá no pior sentido da metáfora.
Nem tudo são pedras e espinhos. Os aspectos visuais saltam aos olhos, especialmente em se tratando de uma produção do Estúdios Disney. A locação escolhida, a fotografia destacando o clima de outono e a direção de arte tornam o filme "gostoso como um abraço". A trilha sonora é outro ponto positivo, com atenção especial às sensações despertadas pela música tema, This Gift, que poderia ter conquistado para Glen Hansard seu segundo Oscar na categoria. Sem contar o elenco repleto de nomes conhecidos, mas que apresentam atuações em stand by.
Dispensável e pretencioso, é um filme esquecível tão logo subam os créditos.

Sunday, April 21, 2013

Ferrugem e osso (De Rouille et d'os, França/Bélgica, 2012 - 115 min.)

O diretor francês Jacques Audiard, aos poucos, tem se tornado um dos meus favoritos no cinema recente. Depois de conceber o ótimo O profeta, representante francês no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, e do igualmente maravilhoso De tanto bater, meu coração parou, ele retorna à temática que mistura violência com crise econômica e produz mais um excelente exemplar em sua filmografia: o filme Ferrugem e osso.
Adaptando o conto do canadense Craig Davidson, a produção acompanha a história do ex-boxeador Alain. O sujeito está está desempregado e vive com o filho, de apenas cinco anos. Ele parte para a casa da irmã em busca de ajuda e logo consegue um emprego como segurança de boate. No entanto, o desejo de continuar lutando é mantido, mas ele precisa brigar em lutas clandestinas para sobreviver após uma lesão. Um dia, ao apartar uma confusão, ele conhece Stéphanie, uma bela treinadora de orcas. Alain a leva em casa e deixa seu cartão com ela, caso precise de algum serviço. O que eles não esperavam era que, pouco tempo depois, Stéphanie sofreria um grave acidente que mudaria sua vida para sempre. 
Em Ferrugem e osso, Audiard deixa um pouco de lado a visão fatalista e crua para assumir um clima, digamos, um pouco mais romântico. E, nem por isso, menos impactante. Por mais que ainda haja uma dose extra de testosterona (em O profeta, predominavam os personagens masculinos), a presença de uma figura feminina ajuda a suavizar um pouco a temática.
Audiar é elegante em sua condução narrativa, valendo-se de uam discrição insuspeita. Nada de firulas ou emoções fáceis. O diretor coloca sua força criativa a serviço de sua história e do desenvolvimento de seus personagens, arrancando performances arrebatadoras de seu elenco. Marion Cotillard não precisa de muito; a atriz é umas das mais completas do cinema atual e entrega uma atuação bem densa e sutil. Agora, o trabalho de Audiard com o belga Matthias Schoenaerts é impressionante. O brutamontes, sério candidato a galã de filmes de ação, funciona perfeitamente no longa, dando uma incrível fisicalidade ao pai ausente e frustrado lutador de boxe Alain.
O filme quase não apresenta problemas. Um dos grandes trunfos é a maneira com que utilizou os efeitos especiais para deixar Marion Cotillard sem pernas. As cenas de nudez envolvendo closes bem generosos nos corpos de seus protagonistas, aquelas máquinas humanas exalam um conflito angustiante. Em cena, tem-se Alain, desinibido, o estereótipo grego da beleza e virilidade; Stéphanie, desajeitada, faltando um pedaço de si. A evolução do relacionamento de ambos é gradativa. No ínício, ela esconde a prótese dele, em quartos com luzes bem apagadas. Porém, tudo muda quando ela precisa ir ao banheiro. Sem nenhum constrangimento, Alain a carrega no colo e assiste à parceira fazer suas necessidades fisiológicas. A partir desse momento, a moça perde a vergonha de seu corpo dilacerado.
Mas quando se fala de cenas memoráveis, impossível não elencar uma das passagens mais belas do filme e, por que não, do próprio cinema: Marion Cotillard e a baleia. Depois de ser obrigada a reconstruir sua vida se não quisesse morrer, Stéphanie resolve resolve visitar, sem guardar mágoas, os animais que tanto amou, mas que foram responsáveis por destruir sua existência. Impossível manter-se impassível diante da beleza azul. Ela, imensamente inferior ao enorme ser marinho em sua frente. A plasticidade da cena aumenta quando levado em consideração a capacidade humana de odiar aquilo que ama e de amar aquilo que odeia. Um fragmento para se levar para sempre na memória.
O desfecho enfraquece um pouco a obra, mas não chega a comprometer o seu brilho. Vale cada minuto assistido e serve como uma grande reflexão sobre o fazer cinema e a respeito da própria vida. Fundamental para qualquer cinéfilo.

Friday, April 12, 2013

Kon Tiki (Noruega, 2012 - 118 min.)

Kon Tiki é um filme poderoso em diversos aspectos. O longa norueguês concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Inspirado na história do explorador Thor Heyerdahl, este drama mostra a expedição Kon-Tiki, de 1947. Thor e cinco outros homens queriam provar que os moradores da América do Sul poderiam ter ocupado a Polinésia em épocas pré-colombianas. Para isso, ele construiu uma balsa com as técnicas da época, e partiu em uma aventura através do Pacífico.
Quando se pensa na época em que isso aconteceu e em tudo o que envolveu, chega-se à conclusão de que, sem sombra de dúvida, a iniciativa foi bastante ousada. Afinal, estes seis homens atravessaram o oceano (8.000 quilômetros!) na companhia de uma arara e um caranguejo, sobre troncos presos por cordas umedecidas, apodrecendo pouco a pouco, e sendo devoradas por peixes, apenas para recriar as condições dos homens pré-colombianos na época de sua suposta travessia. O tempo médio de viagem era de 3 meses. Mais de 100 dias foram contados e uma autêntica aventura de caráter épico fora realizada e registrada por uma Super 8. Uma curiosidade: o documentário produzido durante essa viagem faturou um Oscar no ano de 1951.
O filme toca em uma questão importante: até onde vai a coragem e o sonho de homem? Para isso, os cineastas noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg recriaram com impressionante riqueza de detalhes a expedição de Heyerdahl. O roteiro é construído em cima das crises pessoais de cada um dos integrantes dessa aventura. A apresentação de cada um deles é muito bem conduzida, com destaque especial para o protagonista, durante toda a história. O misto de emoções envolve saudade, esperança, dúvida, foco e medo e vão carcomendo os personagens nos momentos de tensão. Entre belas imagens e diálogos calorosos, o espectador vê-se inserido dentro do barco e arremessado em meio à aventura, sendo incapaz de desviar os olhos da tela.
A produção é luxuosa e há um esforço muito grande da equipe técnica em trabalhar os elementos de maneira não exagerada; soberba, mas com os pés no chão. Não confunda tal afirmação com falta de cuidado. Os efeitos presentes impressionam com seu realismo: tubarões rondando, baleias passeando embelezando o cenário já belo. Em terras escandinavas, o filme fez uma ótima bilheteria.
Com imagens belíssimas, roteiro bem amarrado, interpretações honestes, acabamento grandioso e direção segura, Kon Tiki conquista pelo conjunto cinematográfico e pelo inerente desejo do homem pela aventura. Um prato cheio.

Thursday, April 11, 2013

Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe EUA , 2011 - 102 min.)

Como é bom assistir à filmes novos de antigos e consagrados diretores. William Friedkin é um desses. Se você ainda não ligou nome à pessoa, Friedkin é o responsável por grandes clássicas como Operação França e O Exorcista. Precisa de uma maior apresentação? Naturalmente que não. Por isso, vamos falar de Killer Joe - Matador de Aluguel.
Os mais desavisados irão se apressar em comparar esse longa à obra recente de Quentin Tarantino. E isso se deverá ao humor rápido do roteiro, bem como o uso e abuso da violência estilizada. Contudo, antes mesmo do falastrão Tarantino ganhar prêmios por sua genialidade, Friedkin já estava na estrada produzindo boas coisas.
O presente filme é uma grata surpresa no quesito humoer negro. Chris, um jovem traficante de cocaína metido em apuros por causa da sua mãe, chama Killer Joe para assassinar sua genitora. Com o consentimento de seu pai, da sua madrasta e sua irmã mais nova, Dottie, os três concordam em contratar Joe Cooper para dar cabo dela e receber um gordo montante do seguro de vida. Como eles não têm o dinheiro de imediato, Joe mantém Dottie como “garantia”, ameaçando levá-la caso o dinheiro não apareça.
Inusitado? Sem dúvida, mas nem por isso menos gratificante de ser visto. Neste universo, ninguém parece sentir muito remorso por estar tramando contra a vida de parentes tão próximos. Quem conhece o diretor, sabe que ele não é adepto de mocinhos puros e vilãos malévolos. Tudo é cinza e a personalidade humana é explorada em sua forma mais baixa, mais vil, mais suja.
Explorando os lugares comuns tão conhecidos em thriller, Friedkin não precisa de muito esforço para expor uma comédia de erros, na qual uma família disfuncional, incapaz de demonstrar qualquer traço de carinho e amor, evidenciando sua falta de valores, sua desunião e o desejo desenfreado de conseguir tudo a qualquer preço, recebendo posteriormente o pagamento de seus atos. O que começa como uma comédia de erros estereotipada rapidamente se transforma num acerto de contas caricatural e violento.
O exagero faz parte do longa. Não chega a espantar ou surpreender o banho de sangue arremessado na tela a cada minuto. Eles estão acostumados com isso. Friedkin vai ao máximo em explorar a violência gráfica e a nudez para compor seu universo. O riso surge, mas não uma risada gostosa, voluntária. O riso é mais nervoso, onde se ri para disfarçar a crueladade.
Matthew McConaughey, bastante explorado em comédias românticas, consegue sustentar um personagem muito interessante, misto de sofisticação e instinto homicida. Como se não bastasse, é envolvido de uma libido muito aflorada, deixando o espectador na angústia do que irá fazer em seguida. Está possuidor de uma insanidade muito bem vinda ao tipo que compôs.
Os filmes de William Friedkin estão no extremo do caos e do horror, pois ele defende a tese de que só experimentando a violência aprende-se a entendê-la. E em Killer Joe - Matador de Aluguel é justamente isso que ocorre. A violência no cinema chegou a um ponto em que se tornou tão banal, que somente ao encará-la de vez, elevando-a a enésima potência e conseguindo tintas tão sanguinolentas, o espectador será capaz de alcançar a noção de novo do que são capazes os homens e os seus atos.

Monday, March 11, 2013

007 - Operação Skyfall (Skyfall EUA / Reino Unido , 2012 - 146 min.)

Mais do que um filme da franquia 007, Operação Skyfall é um filme de autor. Sam Mendes, mais conhecido por seu trabalho em Beleza Americana, assume o comando no novo filme do agente britânico e decidiu fazê-lo como uma obra artística. De certa maneira, Mendes é o primeiro diretor com pedigree a comandar uma produção do agente. E, com isso, traz toda a veia artística conquistada até aqui, emprestando para as aventuras de 007.
O roubo de um HD contendo informações valiosas sobre a identidade de diversos agentes, infiltrados em células terroristas espalhadas ao redor do planeta, faz com que James Bond parta atrás do ladrão e, com o término da perseguição, acredita-se que o agente está morto. Bond passa a levar uma vida como "fantasma" até assistir, pela TV, o ataque terrorista sofrido pelo MI6 em plena Londres. Disposto a mais uma vez defender seu país, ele retorna à capital inglesa e se reapresenta a M, mesmo guardando uma certa mágoa dela por ter ordenado o disparo. Logo eles descobrem que o responsável pelo roubo e o atentado é alguém que conhece muito bem o modo de funcionamento do MI6.
Sem considerado moderno, com seus apetrechos tecnológicos, o novo filme parte de um pressuposto que o agente está um pouco ultrapassado. Os roteiristas John Logan, Neal Purvis e Robert Wade colocam Bond como um veterano que insiste em permanecer em atividade, mesmo que canse e sofra com a idade já avançada para a tarefa que desempenha. Talvez pela primeira vez em toda a franquia, Bond é visto passando por testes dentro do MI6, precisando provar a sua aptidão. O velho versus o novo, o analógico versus o digital. Os diálogos sobre o tempo ser implacável e as atividades ser coisas de jovens são recorrentes, demonstrando que o tipo de ação praticada por Bond está ficando para trás.
Até os protagonistas vivenciam essa dualidade entre o arcaico e o moderno. James Bond, sendo a representação do velho, utiliza navalha, faca, espingarda, trator, rádio. O vilão da vez, Silva é adepto da novidade e utiliza computadores e artefatos tecnológicos. Indo além, Bond é o macho bruto, rústimo e sistemático, ao passo que Silva é afetado em uma visão bastante moderna da sexualidade.
Daniel Craig continua muito convincente nas cenas de ação, enfrenta momentos de crise e revela uma surpreendente dimensão humana. Porém, a grande surpresa do filme é Javier Bardem e seu vilão Silva. Maquiavélico e cínico, ele deseja se vingar de M. Quando sua figura única emerge em cena, chama todas as atenções, em especial quando lança uma série de subentendidos homossexuais a Bond, algo inimaginável em filmes clássicos da série (sintomática a cena que este aperta as coxas de Bond). 
Apesar das muitas "bond girls" serem mulheres sensuais e perigosas, quem faz a parceria feminina da vez é a septuagenária M. (Judi Dench), chefe de Bond no MI6, o serviço secreto inglês. Muitas metáforas à figura materna de M são distribuídas durante o longa e o desfecho, o destino final de M, é selado em uma das decisões mais chocantes da filmografia recente de Bond.
Há uma certa ausência em grandes sequências de ação. Durante boa parte de suas quase duas horas e meia de duração, ela simplesmente não ocorrem e isso fez muitos aficcioinados por correria considerar este o pior dos mais recentes filmes de 007. Porém, Mendes optou sair do personagem padrão que a franquia sempre trouxe, decidindo por desenvolver melhor a história e seus participantes. Uma decisão arriscada, mas útil por tirar a obra do lugar comum da superficialidade e possibilitando a Mendes construir alguns significados que podem passar despercebidos. Uma obra de arte mesmo.
Trazendo ainda uma sensacional sequência de créditos iniciais, ao som da canção-tema interpretada por Adele (e agraciada com o Oscar de Melhor Canção Original), 007 - Operação Skyfall é uma das melhores incursões do agente nas telonas. Completo, bem desenvolvido e com uma trama inspirada, é uma produção que merece ser assistida diversas vezes.

Saturday, March 09, 2013

O voo (The flight EUA , 2012 - 138 min.)

Robert Zemeckis está de volta aos filmes live action depois de experiências com animações com captura de performances. O longa que marca o retorno do diretor ao dirigir atores de verdade é este O voo, que tem Denzel Washington como protagonista.
O filme retoma uma velha tradição hollywoodiana de narrar histórias de homens com suas vidas destruídas pela bebida - o que me vem à mente é Farrado Humano. Porém, o roteiro de O voo precisa atualizar um pouco as coisaas para esses novos tempos. Acrescentou-se à bebida alcoólico, o uso e abuso de drogas.
Ao longo de um pouco mais de duas horas de duração, emos a história de Whip Whitaker, um piloto de avião viciado em drogas e álcool que, ao voar alterado em um avião defeituoso, acaba salvando a vida da maior parte dos passageiros ao pilotar de forma pouco usual. Das 102 pessoas a bordo, 96 sobrevivem. Essa sequência inicial envolvendo o acidente aéreo é assombrosa e extremamente tensa.Whip não é apenas um piloto comum. O homem é dotado de uma capacidade profissional incrível e a usa em uma manobra espetacular.
Porém, houve mortes e a investigação sobre o caso será profunda. O roteiro, indicado ao Oscar este ano, organiza em cena uma situação bastante engenhosa. É inegável que o comandante foi um verdadeiro herói ao salvar tantas vidas em uma operação incomum e que as falhas técnicas do avião nada tinham a ver com o estilo de vida pessoal dele. No entanto, ao descobrirem álcool e cocaína em seu sangue, todo seu heroísmo vai por água abaixo.
Ainda que o Sindicato dos Pilotos tenha um ótimo advogado, nada impedirá o abalo emocional que cairá sobre Whip e o impulsionará cada vez mais para o fundo do poço, experenciando como é afastar as pessoas ao seu redor, tanto a ex-mulher quanto o filho, quanto seu novo laço afetivo, uma ex-viciada em heroína vivida por Kelly Reilly.
O voo faz parte também de filmes sobre superação, tão queridos e adorados pelo grande público. E Zemeckis não nega essa vertenta em sua abordagem. É uma história bem clara, lidando com temas pesados de forma apaixonada e dedicada. Closes, enquadramentos do protagonista para evidenciar o sofrimento, paleta de cores mais escuras, trilha sonora emotiva para conduzir qualquer um às lágrimas. Conhecemos muito bem esse tipo de filmes, especialmente aqueles que foram criados sob a batuta de Steven Spielberg.
Um dos grandes trunfos do filme é apoiar-se na competência de seu elenco. E este não decepciona. A começar pelo seu protagonista reconhecido com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Denzel Washington esbanja domínio cênico. Quem mais poderia surgir como o próprio diabo pedindo simpatia na música dos Rolling Stones? Colocar Denzel como protagonista é justamente pedir o comprometimento do espectador em ser favorável a esse cara tão absoluto.
Outro que vem quebrando tudo em atuações é John Goodman. Como o amigo fornecedor de drogas do piloto, Goodman entrega um trabalho expansivo e peculiar. James Badge Dale, oferece uma marcante interpretação de um paciente de câncer terminal. Todas essas performances ganham uma carga distinta.
O filme consegue sustentar o interesse do espectador do começo ao fim. Mas há algo de muito incômodo em O voo, além do avião e do alcoolismo. Sobre isso, não há muito a ser dito, correndo o risco de estragar o filme para quem ainda não viu. Pode-se em todo caso dizer que o final extremamente moralista poderia ser, muito bem, evitado. Ele não se apoia em nenhuma premissa lógica, nada sólido em todo caso, que justifique a mudança de comportamento de Whip. O final deixa de lado qualquer relação com o acidente (tecnicamente falando) para buscar motivos externos que dizem respeito a um último tema do filme: a obsessão americana pela verdade.
É o que o epílogo confirmará, quando nos vemos diante de algo que mais parece uma peroração de pastor subevangélico. E esse jeitão de fábula moralista é que tira muito o brilho do filme de Zemeckis. Ainda que seja uma das melhores cenas da fabulosa interpretação de Denzel, poderia ser colocada de outra forma. No fim das contas, fica apenas uma sensação agridoce, quase amarga.