Nunca é possível reconhecer o útlimo momento de felicidade que antecede uma tragédia. Seja ela o ataque às torres do World Trade Center, seja o cruel bombardeio aliado sobre Dresden, que arrasou a cidade e a população civil da histórica cidade alemã na Segunda Guerra Mundial. Portanto, dificilmente há tempo de verbalizar o amor que se sente pelas pessoas próximas que, por um golpe do destino, tornam-se distantes. Esta constatação e os dois acontecimentos históricos guiam este livro.
É incrível pensar que este é somente o segundo livro do escritor Jonathan Safran Foer. E é ainda mais incrível acreditar que o autor conseguiu encantar e conquistar mais uma vez. Extremamente alto & Incrivelmente perto é um dos livros mais contudentes lidos por mim recentemente. Sou alguém muito complicado com literatura, mas, quando sou ganhado nas primeiras páginas, entrego-me totalmente aos personagens e sou capaz de vivenciar suas dores a cada parágrafo. E foi isso que Foer conseguiu fazer.
Algumas coisas conquistaram-se logo de cara: o humor corrosivo, as referências que situam o romance em seu tempo (neste caso, à cultura pop, tema deste blog), o arrojo narrativo. E ainda, Foer toca em feridas pulsantes na história mundial, como o 11 de setembro e o bombardeio a Dresden. Todos esses panos de fundos históricos servem para conduzir uma linha narrativa sobre busca. Praticamente, todos os personagens estão à procura de algo: do pai, do amor, do sentido para viver.
Com apenas nove anos de idade, Oskar Schell perdeu seu pai há dois anos nos atentados às Torres Gêmeas. Ambos tinham uma relação bastante estreita e inteligente. O pai estimulava o filho a procurar erros no The New York Times, por exemplo). Sem o pai, Oskar vive com a mãe e, de certa forma, culpa-a por tentar seguir em frente, sem o marido. Ele também convive com a avó, abandoada pelo marido décadas antes e que criou seu único filho, o pai de Oskar, sozinha. Em um dos seus momentos típicos de irritação infantil, Oskar encontra um vaso azul dentro do closet do pai e, dentro do objeto, um envelope com a palavra Black escrita nele e uma chave dentro. Ir em busca da fechadura aberta pela chave é o que motivará Oskar a iniciar uma busca por toda a cidade de Nova York, encontrando vários tipos de pessoas em uma enriquecedora experiência de vida.
Foer realiza uma obra poderosa sobre a expurgação da dor e a busca de viver apesar de. Consegue fazer isso utilizando de diversos recursos gráficos, fotografias, páginas em branco, coloridos, marcações; maneiras de inserir ainda mais o leitor dentro dos dramas vivenciados pelos personagens. Mas ele não faz somente isso; não cria sua narrativa apenas em truques de linguagem, jogos de espelho e contrapontos temporais (como os focos narrativos assumidos pela Vó e pelo Vô em pontos chaves da trama). Foer está interessado em manter-se fixado em seu país, ha história e em fatos relevantes. Naturalmente, não apenas ao 11 de setembro, mas também na reconstrução do espírito americano pós-atentado. É também capaz de enxergar o outro lado da questão ao mostrar que a dor sentida pelos norte-americanos já foram sentidas por tantos outros povos, muitas vezes infligida pelos próprios Estados Unidos.
Antes comentei sobre os pontos de vistas e isso acaba incomodando em alguns autores quando se propõem a isso. É comum a mudança de ponto de vista marcada apenas pela indicação no início do capítulo, ao passo que a escrita permanece exatamente a mesma, sem nenhuma variação de estilo. Foer domina muito bem essa técnica: as diferenças de linguagem e a abordagem entre cada personagem são únicas. As narrativas de Oskar, do Vô e da Vó são completamente distintas umas das outras.
Por mais que elogiar Foer é chover no molhado, seu vigor literário é inegável e ele se torna um dos maiores expoentes de sua geração. Faz rir, chorar, refletir, questionar, na mesma medida. É uma leitura que não termina quando se fecha o livro ou quando se lê a última página. É o tipo de texto que fica. Que permanece. Apesar de.







